A canção de Aquiles — Madeline Miller

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Em primeiro lugar, vai ter spoiler, mas tudo bem porque todo mundo conhece a história. E se não conhece, bem feito.

Quando ia chegando o natal do ano passado, eu ganhei de presente do meu pai o livro 1 da série de Rick Riordan que é praticamente a segunda temporada de Percy Jackson.  E por maior que seja meu amor pelos livros, e não importa nessa conta o quão público esse amor seja, meu pai não é de dar livros de presentes a ninguém. Então, aproveitei que ia passar o natal em Recife e li o livro de um fôlego só.

Não é que eu tenha sentado e dito que o leria de um fôlego só, mas peguei para folhear e de repente o dia amanheceu e eu tinha terminado. E quando eu terminei de ler, emburaquei nos livrinhos de Percy Jackson propriamente ditos, e de 25/12 até hoje, 22/01, li toda a primeira temporada de Percy Jackson, o que o meu pai me deu, os livrinhos anexos e tomada por toda essa voracidade por mitologia, em um passeio na livraria acabei comprando o romance de estreia de Madeline Miller, premiado com o Orange de 2012, A Canção de Aquiles.

Aviso agora mesmo que não sou deslumbrada com mitologia grega de hoje. É um mal que me aflige desde as reprises incansáveis de Hercules e Xena da minha infância e de histórias que minha mãe e minha tia contavam. Até do próprio Monteiro Lobato. Não importa a origem do meu fascínio, o importante é que ele sempre foi muito meu.

Agora, voltando ao livro (desculpa sociedade, mas essa não é uma resenha dessas que tira o livro do mundo, ao contrário, ela insere bem o livro no meu mundo e na minha vida porque estou escrevendo porque eu quero escrever sobre o(s) livro(s) que eu quiser fazer e em nenhum momento ganhei pra isso – nem dinheiro e nem livros – e eu acredito que não tem como o humor e o cotidiano do leitor influi bastante no que ele acha do livro), eu comprei num passeio rápido pela Saraiva do shopping de Mossoró.

Quando eu vi na prateleira, fui imediatamente seduzida por dois ou três fatores de capa: 1. O título, porque invocava a mitologia e, mais que isso, um outro romance baseado na Ilíada que eu li uns anos atrás e simplesmente adorei, A Canção de Tróia, de Collen McCullough –  ela também escreveu Pássaros Feridos, que eu nunca consegui terminar de ler porque morro de pena da menina da boneca do prólogo.; 2. O capacete de guerra na capa. Pode ser preconceito, não nego e não me importo, mas não sou muito entusiasta de livros escritos por mulheres, especialmente as de quem nunca ouvi falar. Sei lá, é muita frescurinha, muito frufru. Eu gosto de romances menos melosos e histórias em que o amor não é o fim e o amanhecer do sol nos cabelos dourados do personagem X ou Y não reflitam a maravilhosidade do caráter ou o néctar divino dos seus beijos. Não tenho paciência, meus amigos sabem, eu nem sei dar consolar ninguém, eu só pioro as coisas ou chego dando voadora, invariavelmente nas vítimas.

Por isso quando vou comprar um livro, evito aqueles cujas capas exibem uma mulher num campo florido e coisas do tipo. Dito isto, admito que não li “a prosa de Miller é mais poética que várias traduções de Homero” que o livro exibe orgulhoso logo acima do título. Se tivesse lido isso e visto que a autora é uma moça bem bonita e bem novinha, talvez tivesse deixado o livro lá na prateleira mesmo. Sabe como é né? Ela parece bonita e nova demais para ter escrito um livro sem muitos “oh céus, oh mar, estremeci quando ele me tocou”.

E comecei a ler um pouco desanimada, pois me dei conta de todas essas coisas quando, em casa, peguei o livro para ler. Descobri também que quem narra a história é Pátroclo, que eu lembrava que era o namorado de Aquiles, e dado que a Canção título do livro era de Aquiles e não da guerra de Troia como no livro de McCullough, temi que o mote do livro ia ser o amor dos dois e, consequentemente, muito cheio de oh céus oh mar oh azar.

O livro começa com Pátroclo contando de quando viu Aquiles pela primeira vez. Nesse tempo, Pátroclo ainda era príncipe e achou Aquiles estranho. Conta também de quando seu pai o arrastou para pedir a mão da mulher mais bela do mundo, Helena, e de seu consequente juramento de proteger o casamento dela com quem quer que ela escolhesse entre seus pretendentes. Mais tarde, o pai exila Pátroclo e o envia deserdado para Fítia sob os cuidados do rei Peleu, pai de Aquiles por conta de um acidente.

Em Fítia, Pátroclo está sempre isolado com sua própria estranheza e só aparece na própria vida sob a tutela de Aquiles, agora um menino lindo, louro, de pele dourada fulgurante e cheirando a sândalo. E os dois se tornam próximos e vemos que Aquiles, talvez por ser filho de uma deusa ou porque Pátroclo na verdade era uma menina com cartazes de Apolo na parede, dá choque. Sim, choque, porque é absurdo o tanto de estremecimento que o toque do semideus causa no exilado.

Sob o olhar de Pátroclo, vemos a beleza de Aquiles, que mesmo ciente de que está destinado a ser o maior de todos os gregos, não tem pressa de ser grande e aproveita suas aulas de lira e as corridas na praia com o então amigo Pátroclo. E, narrativas melosas a parte, é encantador ver o amor se desenvolver com aquela leveza. Existe então o dia em que menino Pátroclo não consegue se conter e beija Aquiles que, surpreso, não sabe como reagir. A mãe de Aquiles, uma deusa do mar que desejava melhor destino ao filho que um exilado, bota as garras homofóbicas de fora e despacha o rebento para ser educado por Quíron, o centauro treinador de heróis, como convém a um semideus príncipe.

Só que Aquiles não vai de cara, e fica no caminho esperando Pátroclo, que ele sabia que ia segui-lo. Os dois se encontram no meio do caminho e Quíron os aceita para treinamento. Aquiles, para a guerra, Pátroclo, para a  medicina.

Durante o tempo que os dois ficam com Quíron, Pátroclo e Aquiles nunca conversaram sobre o beijo e nada acontece entre os dois até os dezesseis anos de Aquiles. E durante todo esse tempo, Pátroclo precisa dormir no mesmo catre que o objeto de sua afeição sem poder tocar e nem mencionar o amor que lhe devota. E dá um dó danado de ver o rapaz no cinco contra um no matagal escondido para que não tenha que dar explicações.  A cena em que Aquiles – finalmente – beija Pátroclo é muito sensível e fofinha. Há boatos de que eu chorei. Não confirmo, porém não nego.

Sob o olhar de Pátroclo, vemos um Aquiles calmo, justo, dourado, alto, de olhos verdes, musculoso, oh céus, oh mar, oh cheiro de sândalo em contraste com um desajeitado e cheio de defeitos Pátroclo, que vai se mostrando mais e mais virtuoso a medida que a história avança e a realidade da guerra aparece para todos.

Aquiles recebe a profecia de que uma vez que vá a Troia não retornará. E já tinha decidido ficar escondido vestido de mulher em um reino próximo até que a guerra acabasse quando Odisseu <3 chega dizendo que se ele for a Troia, vai morrer mesmo, mas se não for, vai perder a própria grandeza e não será famoso nem virará grande artista, nem gravará comercial e nem será capa de revista. Aquiles, que devia ser o tatataratio mitológico de Kelly Key, resolve que se for pra morrer um dia, que seja morrer famoso, resolve que vai a Troia.

Em Troia, vemos que Aquiles vai pouco a pouco sucumbindo ao próprio orgulho de ser o maior grego de todos os tempos, e vemos um Pátroclo se mostrar mais nobre. Não é, porém, um livro sobre a guerra. A narrativa poética de Miller nos traz uma belíssima história de amor (com seus percalços, sutilezas e chifres) de uma pessoa que se deu tanto a outra que nunca conseguiu enxergar os próprios valores em sua verdadeira extensão.

Mais de uma vez derramei uma lágrima ou outra por Pátroclo, o verdadeiro herói da história, para mim. E nesse processo, me apaixonei uma vez ou outra por Aquiles, mas também odiei cada um de seus fios de cabelo dourados e fiquei ansiosa esperando a flecha de Páris em seu calcanhar.

O romance delicado de Miller não utiliza as versões da Iliada em que Tétis banha o filho no rio Estige e o faz invulnerável, salvo pelo calcanhar. E assim fiquei muito frustrada quando a flechada mortal não veio na direção dos pés de Aquiles, mas fez sentido. Aquiles foi desconstruído. Vemos a nobreza de Pátroclo. Vemos como os heróis padeciam de vaidades tão imensas e como todas as falhas comuns estão presentes em todos. E como todas essas coisas que eram deles também são nossas, a importância dos sem sangue divino ou dinheiro – nos nossos dias – segue mais difícil de ser lembrada.

E foi bonito ver a alma de Pátroclo tentando conseguir chegar ao mundo inferior para procurar Aquiles e sem poder porque o filho dele com Deidâmia, sua esposa em segredo,  negou-lhe o sepultamento adequado com medo de macular a fama do pai que sequer conheceu.

A dor da alma de Pátroclo, o melhor dos mirmidões, é o que lhe faz perder o medo da sogra do mal, ele  fala para Tétis sobre o filho dela, de quem ela não conhecia a beleza maior, aquela de todos os dias, sobre a velocidade de seus dedos tocando lira e que era muito maior que a sua inegável habilidade de matar gente na guerra.  Miller nos dá tanta delicadeza no luto da alma de Pátroclo que chorou a morte de Aquiles em seu pós vida desassossegado e só tendo a sogra deusa que o odiava para lamentar junto. E justo ela que nunca aprovou o namoro, foi a responsável pelo encontro dos dois no Mundo Inferior.

A Canção de Aquiles foi o quinto livro de 2014 e não aplacou o meu renovado interesse por mitologia greco-romana, mas sim o elevou.  A história é a mesma, um garoto que conhece outro garoto que é demais e que no fim das contas não era só aquilo pelo que era amado. Aconteceu comigo, com você, com sua vó, com seu amigo, acontece com todo mundo, todos os dias, porque todas essas histórias também são muito verdadeiras.

Virei mulherzinha, tá todo mundo perdido. Cá estou eu torcendo pra ser tudo verdade e Aquiles e Pátroclo estarem juntos nos Elíseos até hoje e só Zeus pode me julgar.

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A canção de Aquiles — Madeline Miller
Anna Ingrid

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