A Entropia da Música Popular Brasileira

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Em 1970 eu ainda não era nascido. A despeito disso, creio que seja uma época de que eu tenha saudades. Podem dizer que isso não faz sentido, e de repente nem faz mesmo. Grande coisa.

Todo mundo sabe que naquela época a censura era muito acirrada, e os artistas, de maneira geral, muito pouco tinham condições de manifestar e expressar seu talento. Talvez até por causa dessa restrição toda, os caras eram especialistas em inserir significados velados nas suas criações.

Não faz muito tempo Tom Zé revelou que a capa de um disco seu, em plena ditadura militar, ostentava uma bela foto de um ânus com uma bolinha de gude encaixada, como se fosse um olho estilizado. O nome do disco era “Todos os Olhos”. Teria sido uma aposta que os caras fizeram que conseguiriam fazer passar a foto de um cu pela censura.

Em 1974 Chico Buarque compôs, sob o pseudônimo de Julinho da Adelaide, a música Jorge Maravilha. Talvez seja o único rock dele, não sei. O refrão da música diz: “você não gosta de mim mas a sua filha gosta”.

A primeira versão que conheci sobre esta letra é de que teria sido uma resposta ao General Ernesto Geisel, que na época era presidente da república; a filha dele seria fã de Chico, que por sua vez era ferrenho adversário do regime.

Entretanto, mais tarde fiquei sabendo de uma versão mais verossímil. Chico teria sido preso, e quando finalmente foi liberado o milico responsável pela sua prisão pediu meio constrangido um autógrafo: “é para minha filha, ela é sua fã”. Ao sair dali Chico teria composto a música para este senhor em específico (e não para o velho Geisel).

Contudo, creio que a provocação mais bonitinha que o regime acolheu sorrindo foi “A Tonga da Mironga do Cabuletê”. Em 1970 Vinícius de Morais e Toquinho voltavam da Itália, onde haviam acabado de inaugurar a parceria com o disco “A Arca de Noé”. O Brasil estava em pleno “milagre econômico”, a censura em alta, a Bossa Nova em baixa, opositores ao regime pagando com a liberdade e a vida o preço por seus ideais. Vinicius estava casado com a atriz baiana Gesse Gessy, uma das maiores paixões de sua vida, que o aproximaria do candomblé, apresentando-o à Mãe Menininha do Gantois. Sentindo a angústia do companheiro, acusado de comunista e perseguido como criminoso, Gesse o diverte, ensinando-lhe xingamentos em nagô, entre eles “tonga da mironga do cabuletê”, que significa “o pêlo do cu da mãe”. O mote anal e seu sentimento em relação aos homens de verde oliva inspiraram o poeta, que compôs a música para apresentá-la no Teatro Castro Alves. Era a oportunidade de xingar os militares sem que eles compreendessem a ofensa: “Te garanto que na Escola Superior de Guerra não tem um milico que saiba falar nagô”.

E pensar que o que arrasta multidões hoje é uma “versão” de uma música romena, que aqui traduziram para “Festa no Apê”. Credo.

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A Entropia da Música Popular Brasileira
Janio Sarmento

Janio Sarmento

Administrador de sistemas, CEO da PortoFácil, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam tão sedutoras para as grandes massas.